
Antes de mais nada, gostaria de dizer que eu ainda não li o livro por inteiro. Acho esta afirmação suficientemente clara que eu não tenho nenhum aprofundamento na narrativa...
Conheço Saramago por sua fama, sei que é um autor difícil, que propõe uma reflexão, e assisti o filme já com isso em mente. No entanto, peço licença neste meu espaço para trazer um pensamento a esse respeito.
Assisti o filme com meu namorado no cinema. Confesso que não devia ter feito essa maldade com ele. É uma narrativa lenta, é uma história absurda, mas talvez, seja um filme para poucos(assim como é um livro para pessoas selecionadas).
Digo que é para poucos, porque certamente para pessoas intimamente ligadas à área de comunicação visual, artes, etc, as soluções técnicas para a representação da cegueira são impressionantes, envolventes e admiráveis.
Todo livro que vira filme é criticado. Quando é que os mortais vão perceber que sempre será assim? Existe um motivo para isso: são mídias diferentes, exploram partes de nossa percepção, de nosso raciocínio completamente diferentes! Um livro nunca será um filme, nem um filme nunca será um livro.
O que acontece neste filme, ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, tem muito a ver com essa tradução de uma mídia para outra, mas...talvez parte da culpa seja, de fato do diretor, Meirelles.
A narrativa se passa em uma cidade fictícia, sobre uma doença fictícia de uma epidemia de cegueira branca. O "tchans" da história é a conseqüência : um caos absoluto que destrói a estrutura da sociedade.
Eu mesma, quando assisti achei um filme uma bosta, para dizer o bom português. Só depois, conforme eu fui pensando, relembrando, revendo na minha cabeça os fatos, é que eu comecei a compreender o incompreensível. Tudo só ficou ainda mais claro depois de ler, em vários lugares diferentes críticas pesadas sobre o filme, inclusive culminando no absurdo que no lançamento do filme nos Estados Unidos, aquelas sociedades que não fazer porra nenhuma mas que gostam de causar prometeram "causar" na frente dos cinemas em que o filme seria exibido. Ah, nem preciso dizer que são aquelas sociedades que fazem porra nenhuma de defensores dos Cegos!!!
O problema é que esses caras alegam que o filme retrata os cegos como monstros.
O que os caras não entenderam, é que o filme NOS retrata como monstros. A cegueira, como disse o próprio Saramago, é "uma cegueira da razão". De repente, este manto branco que preenche a vista dos afetados pela doença causa um colapso interno. As pessoas perdem o referencial, tornam-se indefesos, desnudos, vulneráveis.
Esta nova situação, conforme começa a propagar-se epidemicamente, força as autoridades a isolar os doentes desta doença desconhecida. Neste isolamento, se por um lado as pessoas afetadas estão completamente isoladas e presas, privadas de sua liberdade, por outro, elas encontram-se, pela primeira vez, verdadeiramente livres.
Livres, porque não há nenhuma ordem governamental, nenhuma lei, nada. A única lei é a própria conduta, caráter, ética, respeito, de cada um. Neste ponto, a total despreocupação com o racionamento e planejamento do consumo dos alimentos, a falta de higiene e de preocupação com os lixos produzidos, representam de metaforicamente, a despreocupação enraizada em cada um de nós.
Pense grande, pense além: quantas pessoas realmente se preocupam com o lixo que elas geram? Quantas pessoas se preocupam com o que acontece com este lixo da porta pra fora? A maioria não importa, porque "o que os olhos não vêm o coração não sente". Pois é.
Aquelas pessoas nunca foram cegas, e perderam a visão de forma abrupta. Esta cegueira não representa a forma com que os cegos encaram o mundo, mas justamente a ignorância dos que enxergam.
Um detalhe muito importante: apenas uma mulher no mundo parece imune a essa doença. Ela entrou, logo no início, com seu marido, fingindo estar cega. Ela é então a única pessoa, dentre todas, que consegue ver essa podridão, essa caca que as pessoas fazem (são).
Com o tempo, todas as merdas que podem dar em uma sociedade sem respeito, sem dignidade, sem caráter, acontecem. Se forem lidas(ou vistas, no caso) de forma literal, muitas coisas não aconteceriam desta maneira (e talvez a falha do diretor esteja ai: ele abusou de mais do realismo, para que as pessoas se identificassem com a situação, mas o resultado é, na verdade, uma situação muito surreal para os espectadores , que enxergam(ou os cegos de razão).
Obviamente, um grupo de pessoas de mal caráter se sobrepõe aos demais, explorando, roubando, estorquindo, e todos, simplesmente todos, se permitem, aceitam essa nova condição passivelmente.
Agora, não venha me dizer que isso nunca aconteceria na vida real. Caso você discorde, peço que pense com carinho nos montes de dinheiro que o seu governo enfia no cú, dinheiros que você conseguiu suando a camisa, dinheiros que você conseguiu passando noites em claro, que você deixou de comprar na parcela da sua casa própria, no seu carro. Hoje, candidatos estão ai, e muitos deles(só pra não dizer todos...quem sou eu pra afirmar!?) e tem o rabo preso com alguma trambicagem, corrupção, etc.
Nós deixamos que nos roubem, deixamos que nos estuprem. Somos patetas sem um pingo de coragem, vontade, ou sei lá o que de impedir ou mudar essa injustiça, esse erro, essa palhaçada.
A doença começa a ser curada quando o primeiro cara que ficou cego volta a enxergar. Do mesmo jeito que ele ficou cego, ele "desficou".
Para muitos, inclusive para mim, isso foi um momento de revolta!! Como assim! Acaba o filme e nada se explica! nem ao menos mostra os outros voltando a recuperar a visão.
Mas ai,...pensando melhor...mostra sim.
Mostra, que o cara que ficou cego primeiro, tinha uma cegueira da razão: uma visão tradicional, machista, que subjulgava sua mulher. Isso se mostra evidente quando ela aceita participar de uma suruba no isolamento para conseguir alimento para aquela ala. Ela aceitou essa condição, mas no fundo, ela não tinha mais nada a perder, só sua dignidade. Dignidade? Supondo que ela era tratada com inferioridade pelo marido, que dignidade lhe restava?
Este ato de estúpido passa a ser o ponto chave: o momento em que ela percebe que há mais do que o que se vê. As coisas não são lógicas, não são simples, não são de ninguém. Pois ela consegue libertar-se de si.
Ao final, pouco antes de o seu marido voltar a enxergar, ela revela a ele, que se lembrava sim de determinado momento, que anteriormente no filme seu marido citou para tentar animá-la, resgatando boas lembranças que têm juntos.
Neste momento, em que ela diz isso a ele, ele também compreende, o que era importante para ela, o que ela era para ele. E ele enxerga.
Por que a protagonista da história é a única que não é afetada?
Porque ela é integra, forte, realista. No início do filme, ela se mostra uma esposa dedicada, preocupada, apaixonada e que gosta de agradar seu marido, da vida que têm. Já num momento de caos, no isolamento, ela vê seu marido comendo uma puta, amiga deles.
Neste momento, eu fiquei MEGA revoltada! Ela "perdoou a mulher!!"Mas, depois, eu enxerguei.
Ela passou a tratar seu marido como tratava os demais, porque ela já não estava mais ali por ele, mas estava ali por ela, pela sua integridade, pelos seus valores. Mais adiante, ela mata o cara que estava causando no isolamento, o cara que instaurou uma ditadura no local.
Este ato, apesar de imoral, naquelas circunstâncias, era a única solução.
Saem todos pelos portões, se vêem, novamente, livres, e presos. Andam por uma cidade imunda, abandonada, escrota. Os cegos que perambulam pelas ruas mais parecem zumbis da madrugada dos mortos, buscando por comida, desesperados por comida.
Uma crítica ao consumismo, à falta de ética, falta de caráter, à hipocrisia, insensibilidade, política...
enfim...uma crítica tão complexa que não disse nem um ínfimo do que gostaria de refletir sobre este filme.
Agora eu quero muito terminar de ler este livro.
Os que não gostam, não viram nada.